Operação do Tribunal de Justiça leva serviços jurídicos a comunidades de difícil acesso e já atendeu 289 casais com a conversão de uniões estáveis em casamento civil desde 2024.

Porto Velho, RO - O Poder Judiciário de Rondônia tem ampliado o acesso à cidadania e aos direitos sociais de comunidades indígenas por meio da Operação Justiça Rápida Itinerante. A iniciativa leva magistrados, servidores e equipes técnicas a aldeias de difícil acesso para oferecer serviços jurídicos gratuitos, respeitando as tradições culturais e as línguas dos povos originários.
  1. Às margens do rio Pacaás Novos, na região de fronteira com a Bolívia, a operação chegou às aldeias Tanajura e Capoeirinha, onde foram atendidos integrantes do povo Wari, incluindo subgrupos como os Oro Nao. Na Aldeia Central, os serviços contemplaram integrantes do povo Cinta Larga, com ações voltadas à regularização documental de casais.

    A presença das equipes nas comunidades busca superar obstáculos geográficos e linguísticos que dificultam o acesso à Justiça, permitindo que os moradores obtenham documentos e resolvam questões jurídicas sem precisar viajar até as sedes das comarcas.

    Casamento civil fortalece direitos das famílias indígenas

    Um dos principais serviços oferecidos pela Justiça Rápida Itinerante é a conversão de uniões estáveis em casamento civil. A iniciativa garante reconhecimento jurídico às famílias indígenas e facilita o acesso a direitos relacionados à previdência, pensões e políticas públicas.

    Desde 2024, o número de casais atendidos por esse serviço cresceu mais de 150%, conforme os dados divulgados pelo tribunal. Ao todo, foram registrados 49 atendimentos em 2024, 117 em 2025 e 123 até o momento em 2026, totalizando 289 casais atendidos.

    As ações são organizadas pelo Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO), sob a presidência do desembargador José Antônio Robles. O trabalho conta com o apoio dos Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejuscs) e a cooperação de instituições como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

    Cerimônias respeitam tradições e culturas ancestrais

    Nas aldeias, os atendimentos e as celebrações são realizados em harmonia com os costumes das comunidades. As cerimônias de casamento se transformam em eventos coletivos, com ornamentação feita com elementos da natureza, vestimentas tradicionais, pinturas corporais e danças ancestrais.

    Os atos contam com tradução simultânea do português para os idiomas indígenas, permitindo que os participantes compreendam os procedimentos e acompanhem as orientações das autoridades.

    Entre os elementos tradicionais utilizados pelos noivos estão saias confeccionadas com palha de buriti, cocares e pinturas corporais feitas com urucum e jenipapo. As trocas de alianças e os pronunciamentos oficiais acontecem em conjunto com os rituais conduzidos pelas lideranças indígenas.

    Atendimento chega a diferentes povos de Rondônia

    A atuação da Justiça Itinerante já alcançou comunidades indígenas em diferentes regiões do estado, incluindo áreas próximas aos municípios de Ji-Paraná, Cacoal e Guajará-Mirim.

    Na Terra Indígena Igarapé Lourdes, a equipe do tribunal esteve na aldeia Ikolen para atender famílias do povo Gavião, além de participantes das etnias Arara, Aikanã, Apurinã e Zoró.

    Já na Terra Indígena Sete de Setembro, os serviços foram oferecidos aos moradores da aldeia Amaral, integrantes dos povos Arara e Suruí. Entre os resultados está a entrega gratuita das certidões de casamento diretamente aos noivos e às lideranças das comunidades.

    A tradução para línguas ancestrais do tronco Tupi-Mondé, além da língua Txapakura e seus dialetos, também integra as ações, contribuindo para que os procedimentos judiciais sejam acessíveis aos participantes.

    Documentação garante acesso a direitos sociais

    Além de formalizar casamentos, a operação oferece serviços complementares, como retificação de documentos para inclusão da identificação étnica e reconhecimento de paternidade.

    A certidão de casamento civil pode facilitar a comprovação de vínculos familiares em procedimentos previdenciários, pedidos de pensão e acesso a programas educacionais, de saúde e assistência social, conforme os requisitos de cada política pública.

    A iniciativa também contribui para solucionar pendências documentais enfrentadas por integrantes das comunidades indígenas, inclusive em situações que exigem a apresentação de registros específicos de identificação.

    Com o atendimento diretamente nos territórios indígenas, o Tribunal de Justiça de Rondônia busca reduzir barreiras de acesso aos serviços públicos e assegurar que o exercício da cidadania alcance também as populações que vivem em regiões remotas do estado.